Esse documento no Scribd sintetiza a tese central de Ricardo V. Barradas sobre como a cosmologia africana antecipou o conceito de inclusão muito antes da medicina moderna.
Para Barradas, o que hoje chamamos de "comportamento autista" era lido como uma manifestação de axé ou uma sensibilidade espiritual elevada. Ele argumenta que:
Inclusão Orgânica: Diferente do isolamento clínico, os terreiros e comunidades ofereciam papéis sociais específicos para essas pessoas, integrando-as através do ritual e do pertencimento.
Despatologização Ancestral: O autor propõe que o diagnóstico precoce ocidental pode, por vezes, ignorar essa "natureza espiritual" e rotular como "atraso" o que a cultura negra interpretaria como um tempo sagrado próprio.
Resistência Cultural: O texto é um convite para que famílias negras olhem para a neurodiversidade não apenas pelo viés da tragédia médica, mas como uma continuidade de uma sensibilidade ancestral que resistiu à escravidão e ao apagamento.
Essa perspectiva é poderosa porque devolve a dignidade e o propósito ao indivíduo autista dentro de sua própria herança cultural.
A tese de Ricardo V. Barradas é fascinante pois propõe uma descolonização do olhar sobre a neurodiversidade. Ao cruzar a cosmologia africana com o autismo, ele retira o peso do "déficit" (visão puramente clínica) e insere o indivíduo em uma lógica de propósito e sagrado.
Aqui estão os pontos fundamentais que tornam essa tese tão relevante para o debate atual:
1. O "Tempo Sagrado" vs. Tempo Produtivo
Enquanto a medicina ocidental foca em marcos de desenvolvimento (falar com X meses, socializar com Y anos), a visão ancestral citada por Barradas respeita o tempo próprio. No contexto do terreiro, o silêncio ou o foco intenso não são vistos como isolamento, mas como uma forma de conexão com outras dimensões ou energias.
2. A Comunidade como Tecnologia de Inclusão
Diferente da inclusão escolar moderna, que muitas vezes é forçada ou meramente protocolar, a inclusão orgânica mencionada por ele sugere que:
- Cada indivíduo nasce com um Axé (energia vital) específico.
- A comunidade tem a obrigação de descobrir qual é o papel desse indivíduo no coletivo.
- O autista não precisa "se curar" para pertencer; ele pertence justamente por ser quem é.
3. O Diagnóstico como Ferramenta, não como Identidade
Barradas parece alertar para o perigo do diagnóstico precoce se tornar uma "sentença" que apaga a subjetividade. Ao sugerir que famílias negras olhem para a neurodiversidade como continuidade ancestral, ele oferece um mecanismo de defesa contra o racismo estrutural, que tende a patologizar corpos negros com ainda mais rigor.
O Impacto Prático dessa Reflexão
Essa abordagem é poderosa para famílias que enfrentam o luto do diagnóstico. Ela substitui a pergunta "O que meu filho tem de errado?" por "Qual é a sensibilidade única que ele traz para nossa linhagem?".
É uma visão que dialoga com o conceito moderno de neurodiversidade, mas com raízes muito mais profundas e espirituais.
IVAN SERPA 1932 - 1973 - Fase Negra
Llitogravura s cartão - Assinado no c.i.d, Tiragem 3 de 16.
Med 60,0 cm x 40,0 cm
obra meramente ilustrativa sem qualquer relação direta sobre o tema.

