JOIAS CRIOULAS
A MODA DO PERIODO ESCRAVOCRATA NO BRASIL
"Rompendo
com regras sociais e até leis, mulheres negras que compraram sua
alforria encontraram em adornos feitos em ouro e prata a forma mais
direta de afirmar sua identidade. Só para se ter uma idéia da
ousadia delas, no Brasil do período colonial, os negros eram
proibidos de usar tecidos finos e jóias. A venda de produtos diversos
pelas ruas, principalmente alimentos, foi a forma que elas
encontraram não só para comprar a liberdade como também para
bancar a ostentação. Eram as chamadas escravas de ganho. Entre os
elementos pendentes, em sua maioria também em prata, os mais freqüentes são a figa, a chave, as moedas, o cilindro, a romã, o
cacho de uvas, o peixe e os dentes de animais, remetendo a diferentes
tradições. As jóias das crioulas confeccionadas nos séculos XVIII
e XIX, consistem em uma coleção de peças de joalheria,
especificamente para serem usadas por mulheres negras ou mestiças,
na condição de escravas, alforriadas ou libertas. Estes adornos são
hoje, objetos de museu, apresentados como exemplares de um tipo muito
particular de joalheria, sempre associados às crenças religiosas de
suas usuárias, ou vinculados aos senhores de escravos, como exemplo
paradigmático de comportamento destes indivíduos, que adornavam
suas escravas com uma quantidade exacerbada de jóias de ouro para
exibir poder e riqueza. Os escravos de ganho saíam para trabalhar,
em tempo parcial ou integral e deviam entregar ao senhor uma parte
previamente acertada entre ambos do dinheiro que recebiam por dia ou
por semana. Alguns desses cativos não moravam na casa do seu
proprietário. Os exemplos mais marcantes desses escravos ganhadores
são os mascates de ambos os sexos, os carregadores que trabalhavam
em grupo, os artesãos e as quitandeiras Nas novas condições, a
melhor estratégia era acumular em jóia, os valores, que um dia,
seriam suficientes para a compra de sua alforria, de seus filhos, de
parentes e amigos, ou seja, a compra da sua liberdade e também, a
dos seus entes queridos. Ou ainda, participando da rede de
solidariedade estabelecida pelos escravos, doando suas jóias para
caixa de alforrias (fundos comuns para a libertação de escravos).
Esta é a principal razão de se classificar estas peças como um
design de resistência, por estes adornos de corpo significarem a
sobrevivência ao sistema escravocrata. Assim, a joalheria escrava
simboliza a resistência destas mulheres a condição de mercadoria.
Usar jóias como acessório era imprescindível à elegância da
mulher negra, sendo um fato tão pujante que vários viajantes de
passagem pela Bahia foram uníssonos em apontar esta peculiar
característica, impactante ao ponto de determinar uma portaria real
no ano de 1636:O Rei, tendo tomado conhecimento do luxo exagerado
que as escravas do Estado do Brasil mostram no seu modo de vestir, e
a fim de evitar este abuso e o mau exemplo que poderia seguir sê-lhe,
Sua Majestade dignou-se decidir que elas não poderiam usar vestidos
de seda nem de tecido de cambraia ou de Holanda, com ou sem rendas,
com ou sem rendas, nem enfeites de ouro e de prata sobre seus
vestuários. Com este luxo, as escravas causam uma baixa de moral nas
capitanias, pervertem os homens brancos, do que resulta o cruzamento
das raças e o aumento sempre crescente do numero de pessoas de cor,
o que de modo algum é conveniente."
(Jóia Escrava: design de
resistência Slave Jewel: resistances design - Ana Beatriz Simon
Factum)
JOIA DE CRIOULA Par de brincos com decoração em coco em ouro 18k sec. XIX
Coleção Ricardo V. Barradas RJ
JOIA DE CRIOULA pingente em coco representando tronco com acabamentos
em ouro 18 Kt, século XIX.
Coleção Ricardo V. Barradas RJ
JOIA DE CRIOULA brincos com decoração em coco e pedras em ouro 18k século XIX.
Coleção Ricardo V. Barradas RJ
JOIA DE CRIOULA - Antigo par de Brincos em ouro e toco de coral no feitio
de tamborete. Bahia século. XIX.
Coleção Ricardo V. Barradas RJ